Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013
Flip the Classroom: Tornar o aluno no centro da aprendizagem, um desafio ou uma realidade?

 

Filipa Rodrigues Ramos Pereira

 

Programa Doutoral em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais

Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Media Participativos 2012/2013

Docentes: Luis Pedro (UA) | Pedro Almeida (UA)

filipa.rp@gmail.com

 

Introdução

Atualmente o panorama da educação representa um desafio não só para professores como também para os alunos. Quem trabalha nesta área é constantemente confrontado com observações como: “estas aulas são chatas!”;“ainda temos muita teoria”; “quando é que fazemos algo diferente”. Diferente, é aqui que os papeis de professor e aluno se “confrontam”. Os chamados alunos do século XXI começam a não estar disponíveis para o tradicional modelo de ensino aprendizagem. Será que esta falta de disponibilidade não tem alguma razão de ser? Será que não se pode dar aos alunos algo mais atrativo? 

Neste artigo pretende-se apresentar um conceito revolucionário e interessante que pretende essencialmente dar ao aluno mais destaque no processo de ensino aprendizagem, ou seja, coloca-lo no centro do processo educativo. O conceito pode aparecer como “flip the classroom” , “flipped classroom” ou “flipped learning” mas, neste trabalho adopta-se a expressão “flip the classroom” que numa tradução literal para português significa “virar a sala de aula”. Este conceito procura essencialmente demostrar que é possível promover a aprendizagem com base no aluno, tendo o professor como orientador e guia e recorrendo ao uso das tecnologias para incrementar o que se vai aprendendo (MATS s/d).

Este trabalho terá como análise central a plataforma: SOPHIA Learning, LLC. A análise será feita tendo em conta o que esta ferramenta disponibiliza para que professores e alunos possam tirar um maior partido das potencialidades desta “viragem” na sala de aula. 

Leituras suaves por alguns blogs permitiram perceber que muitos são os críticos construtivos desta mudança e que lhe reconhecem os benefícios para a educação. Descreve-ma como arrojada e dinâmica, trançando uma boa conjuntura para um bom desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem.

Desta forma, este artigo pretende apresentar, a história, o conceito e as  suas particularidades.

 

1. Regresso ao passado

A expressão “flip the classroom tem o seu apogeu em 2007 pelas mãos de Jonathan Bergmann e Aaron Sams, na altura professores em Woodland Park High School em Woodland Park no Colorado. Quando em 2004 começaram a trabalhar juntos, decidiram partilhar as tarefas no que respeitava a preparação de aulas e testes. No entanto, deparam-se com alguns problemas relacionados com as diversas atividades desportivas e culturais que faziam com que os alunos perdessem muitas aulas e também, com o facto de grande parte dos alunos ser de terras mais deslocadas e perderem também muito tempo em viagens de autocarro (casa – escola e vice-versa).

Percebendo que este ritmo era prejudicial para a aprendizagem dos alunos, os dois professores compraram um software e passaram a gravar as suas aulas ao vivo e convertendo essas gravações em vídeo que facilmente poderiam disponibilizar online para que os alunos que faltavam pudessem assim acompanhar as aulas mesmo que a partir de casa (Jimison 2012; Riff 2012). Os alunos gostavam deste modelo e sentiam-se mais motivados e interessados com este novo desafio. Não eram só os alunos que faltavam às aulas que assistiam aos vídeos o que lhes permitiu perceber que era possível repensar a forma como regiam o tempo dos alunos na sala de aula (Jimison 2012 apud Tucker, 2012). Estava dado o primeiro passo para uma inversão no modelo tradicional de educação e na sua própria metodologia de ensino.

Esta mudança permitiu-lhes deixar de estar tanto tempo nas tradicionais palestras com os seus alunos paras lhes permitir que estes sejam mais autónomos e dinâmicos no seu próprio processo de aprendizagem.

 

2. O que é “flip the classroom”?

Visto só assim, parece que estes professores deixaram de estar na sala de aula? Não, de todo. Com esta introdução tecnológica, não só estes, mas muitos professores espalhados pelo mundo começaram a adotar novas formas de ensinar as suas disciplinas específicas  desde a matemática às ciências naturais. O que se passa a observar neste contexto, é que a organização da sala de aula se alterou, o professor deixa de estar na posição central, para dar esse lugar aos estudantes, partilhando com eles as duvidas e curiosidades e quase sempre recorrendo ao uso de tecnologias promovendo uma maior dinâmica em sala  de aula e consequentemente uma maior proximidade entre professor e aluno. 

Entende-se então que, este modelo defende que  o aluno deve ter toda a parte de leitura e pesquisa em casa, recorrendo aos vídeos disponibilizados online pelos professores, e na sala de aula partilham com os colegas os conhecimentos que adquiriu e o professor ajuda na formulação dos  conceitos e temas abordados numa lógica de colaboração-ação entre aluno e professor. Mas como se pode definir este conceito?

Partindo da definição dos próprios impulsionadores, flip the classroom é o nome que se dá a um “modelo de educação no qual se transfere toda a prioridade de aprendizagem para o aluno” (Bergmann and Sams 2012). Percebe-se que é um modelo que promove a colaboração e partilha de conteúdos entre os alunos, possibilitando que estes assistam aos vídeos em casa e que no contexto de sala de aula possam resolver problemas, colocar questões e obter feedback dos seus professores (Gannod 2007).

Segundo Jimison (2012) para Bergmann e Sams, não é só o vídeo que faz a diferença neste contexto, o vídeo é parte importante numa nova abordagem visto que aos alunos não se pede para verem o vídeo de forma passiva mas sim que retirem as suas notas e que tenham pelos menos uma questão para colocar em contexto de sala de aula para que seja discutida entre todos (Jimison, 2012: 4). Parece interessante perceber que esta solicitação pode desenvolver o espírito crítico e questionador dos alunos.

Por outro lado pode verificar-se que algumas vozes se levantam contra o conceito por defenderem que esta prática se transforma numa má pedagogia, sem ênfase na parte de avaliação do professor e que carrega consigo o problema, que ainda muito persiste, da exclusão digital privando muitos alunos deste modelo de ensino aprendizagem  (Bergmann  and Waddell, 2012 apud Jimison 2012: 5). O próprio Bergmann reconhece que este modelo pode não funcionar com todos as disciplinas mas que as que podem usar, só têm a beneficiar no que respeita à procura orientada.

O estudo realizado por Pamela Jimison apresenta alguns resultados do trabalho feito por Fultun (2012) onde é possível verificar a melhoria nos resultados de Matemática na Byron High School  de 2006, 2010, 2011 e 2012. Em 2006 a percentagem de positiva a matemática era de 29,9% e em 2012 já estava nos 94,7%.

Outros valores são igualmente interessantes de registar, a plataforma SOPHIA (uma plataforma online que disponibiliza mais de 25.000 tutoriais para auxiliar os professores na implementação do processo flip the classroom), realizou em 2012 um estudo com 400 professores que utilizaram o método de “virar” as suas salas de aula e é possível verificar que 85% dos professores assume que os seus alunos melhoraram as suas notas. Neste estudo os professores disponibilizavam as lições multimédia aos alunos como “trabalho de casa”; os alunos viam as lições, tiravam as suas anotações e na sala de aula cruzavam as suas duvidas uns com os outros possibilitando um maior e mais assertivo acompanhamento por parte do professor. Dois aspecto que os professores envolvidos neste estudo referiram, e que parecem interessantes, é que o tempo em sala de aula torna-se mais profícuo para o apoio e esclarecimento de dúvidas dos alunos e também que o facto de estar “ligados” com os alunos que utilizam as tecnologias fora de aula promovendo a sua aprendizagem.

Conhecendo melhor o conceito, torna-se determinante conhecer as ferramentas que impulsionam e auxiliam na concretização do processo de “virar” a sala de aula. Veja-se o exemplo da plataforma SOPHIA Learning, LLC.

 

3. A plataforma: SOPHIA Learning, LLC

Free Social Teaching and Learning network focused solely on education” 

A empresa Sophia Learning, LLC, foi fundada em 2009 e tem a sua sede em Minneapolis no Minnesota. O seu propósito é ser uma comunidade online que permite que os alunos façam uma aprendizagem ao seu ritmo sobre os mais variados temas e matérias escolares, ao mesmo tempo que se apresenta como uma ferramenta indispensável para que os professores troquem tutoriais, informações e outros materiais entre si. Esta comunidade é gratuita e exige apenas um registo para que se tenha acesso aos mais diversos conteúdos. Quando se entra na plataforma, aparecem de imediato as situações nas quais se pode estar a visitar – enquanto professor, enquanto aluno e enquanto escola. Abordar-se-á apenas as opções para professores e alunos. No que respeita aos professores, esta plataforma disponibiliza ferramentas para ajudar em contexto de sala de aula mas também em contexto de aprendizagem individual do próprio professor. Para professores são apresentadas três categorias específicas de uso – recursos para sala de aula, crescimento profissional e testemunhos. Dentro da categoria recursos é possível criar; avaliar (com recurso a quizzes); organizar as informações em playlists para que seja mais fácil aos alunos encontrar o que procuram; estar “ligado” com os alunos possibilitando aulas de grupo e a interação entre todos; analisar os progressos de aprendizagem dos seus alunos e o enriquecimento onde com recurso às pathways é possível traçar caminhos individuais para cada aluno, desde o que está mais à vontade até aos que sentem mais dificuldade. Na opção crescimento profissional é possível obter certificados de implementação de “flip the classroom”; aprender com outros professores e ainda, é possível aceder a uma aplicação para iPad. Nos testemunhos, vários professores partilham experiências sobre o uso de SOPHIA. É interessante verificar que constantemente se refere que a utilização da plataforma é gratuita. Em relação aos alunos, o seu espaço também está dividido entre caraterísticas da aprendizagem e estilo da aprendizagem. Para os alunos SOPHIA tem à sua disposição preparação para exames ou simplesmente opções de revisão dos conteúdos. Com recurso à opção “pathways” é possível traçar o caminho de aprendizagem do aluno de acordo com os conteúdos que este vai procurando.

Após efetuado  o registo (foi feito enquanto professor para testar e observar a plataforma) pode começar-se logo a pesquisar, disponibilizar ou comentar vídeos e recursos já existentes. Na barra de pesquisa basta colocar a expressão de que se quer obter informação e de acordo com os recursos que existem assim aparece uma listagem de informações. É possível seguir e ser seguido nesta comunidade, ou seja, após o registo há também acesso aos demais participantes nesta comunidade podendo seguir os seus trabalhos e até trocar opiniões ao mesmo tempo que se fica disponível para que outros possam segui o nosso trabalho.

Nos menus tem-se acesso ao summary, um resumo das atividades praticadas, e onde é possível ver o score individual; aos groups, as aulas em conjunto; as pathways, os caminhos que se tem percorrido dentro da plataforma; as playlists, criação de conjuntos de aulas de uma determinada matéria; tutorials, os tutoriais vistos e criados (próprios); following, onde aparecem as pessoas que se seguem, bem como os tutoriais e as playlists; e por último o menu profile onde se tem acesso aos dados pessoais. Apesar deste espírito de comunidade, SOPHIA Learning, LLC está também na rede social facebook.

A plataforma SOPHIA tem imensa informação que é impossível traduzir para papel, assim, é mais interessante ver e experimentar a plataforma, é gratuita, é muito intuitiva e de fácil uso.

 

Considerações finais

“Flip the classroom” é sem dúvida um método que veio para vingar no mundo da educação, basta apenas que que todos os intervenientes no processo educativo estejam receptivos a essa mudança. E é aqui que parece que está um dos grandes entraves desta implementação, ou seja, muitos são ainda os professores que resistem a esta alterações, ou porque desconhecem como se usam e quais as ferramentas que estão ao seu dispor para o fazer e não estão disponíveis para aprender ou simplesmente porque não se reveem nesse modelo educacional e não o querem adotar. Por outro lado, existe a exclusão digital de alguns alunos que não têm acesso a internet em casa logo não podem entrar nesta “viragem” de aulas em casa e tarefas práticas em aula. Este parece ser, sem dúvida, um dos grandes desafios para “virar” plenamente uma sala de aula.

O surgimento de várias plataformas e programas de apoio, bem como os vários artigos que começam agora a aparecer, assim como o livro de Bergmann e Sams - Flip Your Classroom: Reach Every Student in Every Class Every Day – impulsionaram a adoção deste modelo e possibilitou que este ganhasse cada vez mais relevo, não só em quantidade mas também em qualidade (veja-se o exemplo da plataforma aqui analisada, bem como da plataforma Flipped Classroom Trainning Program – um programa de treino que disponibiliza cerca de 20 aulas para que professores e alunos consigam mais facilmente “virar” as suas aulas tirando daí os seus benefícios.) De registar também a ligação destas plataformas com as redes sociais, nomeadamente o facebook. Tanto a SOPHIA como a Flipped Classroom Trainning Program, estão no facebook, disponibilizam aí os seus vídeos, têm uma resposta ativa aos comentários e dúvidas dos participantes.

Para terminar, é interessante ver também que existem outros espaços online que procuram promover uma educação para todos em qualquer parte do mundo, destaque para o projeto Khan Academy - A free world-class education for anyone anywhere. A Khan Academy disponibiliza aulas em vídeo sobre as mais variadas matérias de forma gratuita basta apenas que se esteja registado. Tem ainda a particularidade de ter um vídeo no qual explica como se usa a Khan Academy.

Quanto mais se procura sobre este mundo das salas de aula viradas, mais se vai descobrindo e mais se vai ficando fascinado com a forma como se procura facilitar o entendimento da prática para que o seu uso seja mais rápido e eficaz.

Em suma, deve apenas referir-se que alguns investigadores já avançaram que o modelo flipped não pode nem deve ser visto como apenas e só disponibilização de vídeos online. Os vídeos não podem, de maneira nenhuma, substituir os momentos de partilha e cooperação em ambiente de sala de aula e com a presença do professor (Nascimento 2012). Apraz dizer que o recurso ao vídeo é como ferramenta mas esta ferramenta só faz sentido se tiver um professor que ajude a traduzir e interpretar o que a ferramenta diz.  É um pouco contraditório em relação ao funcionamento da Khan Academy onde as ferramentas são disponibilizadas para qualquer um com qualquer nível de ensino para que possa aprender de forma autónoma e de acordo com os seus interesses.

 

Bibliografia

Bergmann, J. and A. Sams (2012). "What IS the Flipped Class?". Retrieved 20 de janeiro, 2013, from http://flipped-learning.com/?p=1073.

Gannod, G. C. (2007). WIP - Using Podcasting in a Inverted Classroom. 37º ASEE/IEE Frontiers in Education Conference - T1A. Milwaukee, WI.

Jimison, P. (2012). Investigating the Flipped Classroom: 10.

MATS, M. a. S. T. I. (s/d). "The Flipped Classroom." Retrieved 19 de novembro, 2013, from http://www.flippedclassroom.com/.

Nascimento, R. d. A. (2012). Tempo para Aprender. II Congresso Internacional TIC e Educação.

Riff, T. D. (2012). "How the Flipped Classroom Is Radically Transforming Learning." Retrieved 20 de janeiro, 2013, from http://www.thedailyriff.com/articles/how-the-flipped-classroom-is-radically-transforming-learning-536.php.

 

SOPHIA, L., LLC. (2012). “Free Social Teaching and Learning network focused solely on education” Retrieved 21 de janeiro, 2013, from http://www.sophia.org/

 

 

 

 




.mais sobre mim
.pesquisar neste blog
 
.Janeiro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Flip the Classroom: Torna...

.arquivos

. Janeiro 2013

.tags

. todas as tags

blogs SAPO
.subscrever feeds